Pra onde vai o lixo da Bio Brazil Fair?

Dezenas de toneladas de resíduos estão sendo gerados a cada ano na maior feira de produtos naturais e orgânicos da América Latina. Aqui eu mostro pra onde eles vão e o que podemos fazer pra combater o problema

Nos últimos dias 6 a 9 de junho, o Pavilhão do Anhembi recebeu a 14ª edição do maior evento de produtos naturais e orgânicos da América Latina. Nele acontecem ao mesmo tempo duas feiras: a Bio Brazil Fair, focada em produtos orgânicos de vários segmentos, e a NaturalTech, direcionada a produtos vegetarianos e veganos, suplementos alimentares, cosméticos naturais e mais.

O evento, organizado pela Francal há 14 anos, bateu recorde de público e de marcas expositoras. Esse salto poderá também implicar em outro recorde, infelizmente nada positivo: o de lixo produzido.

No último dia da feira, perguntei à organização o que acontece com os resíduos gerados ali e pra onde eles vão. Muito solícitos, me convidaram pra conhecer os bastidores e me mostrar como o processo funciona – e parte dele acontece logo ali, bem perto da gente.  

Pra onde vai o lixo?

Dentro do próprio Pavilhão, ao lado da área onde acontecem as feiras ficam as “docas”, onde o lixo é separado. Quando passei pela portinha que separa os dois locais foi como entrar em Nárnia, só que não tinha neve e nenhum leão encantado. Só lixo, muito lixo.

A todo tempo funcionários trazem os resíduos gerados pelos visitantes nas dezenas de lixeiras espalhadas pelo Pavilhão, que em seguida são separadas em caçambas de acordo com o tipo de material: madeira, papelão, plástico, orgânico, etc.

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Lixo sendo separado manualmente nas “docas”

Pra não haver acúmulo, pequenos caminhões de coleta seletiva encaminham de tempos em tempos o lixo separado pra cooperativa – nessa edição, a cooperativa contemplada foi a Central do Tietê. Lá esse lixo é separado novamente, prensado, pesado e depois vendido.  

Esse dinheiro fica pros cooperados e suas famílias – atualmente, a Central do Tietê emprega cerca de 60 pessoas, muitas delas em situação de vulnerabilidade social.

Além do trabalho com a cooperativa, a Francal começou a atuar com a eureciclo esse ano. Significa que a organização vai apoiar financeiramente uma cooperativa parceira da eureciclo e em troca receber um certificado de destinação correta de um montante igual ao gerado na feira. Trocando em miúdos, significa que serão reciclados mais resíduos do que os próprios gerados pelo evento.

O lixo, em números

Segundo informações da organização, no ano passado foram 27 toneladas de resíduos gerados nos quatro dias de evento. Dessas, 16 toneladas foram recicladas e 11 toneladas não foram.

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Informações expostas em um painel enorme dentro do Pavilhão

Ainda de acordo com a Francal, dessas 11 toneladas de resíduos não reciclados, 4 eram madeira, que foram encaminhadas pra um local especializado na recepção e tratamento desse material. O restante, 7 toneladas, foram pro aterro sanitário.

Os números dessa edição devem sair no próximo mês, mas analisando o histórico de produção de lixo das outras anteriores, a marca de 27 toneladas deve ser superada.

Falta um “R”

De fato existe um cuidado com o lixo produzido dentro da feira e esse manejo ainda gera renda pra uma porção de famílias. Mas estamos falando de recordes de reciclagem a cada edição quando a solução real é a redução desse lixo, problema com múltiplos culpados: nós, a organização e os expositores.

Como a gente sabe, durante o processo de reciclagem o material sofre perdas e em algum momento ele não poderá mais ser utilizado como matéria-prima. Além disso, mesmo com os esforços da organização, toneladas de materiais estão indo pro aterro, podendo levar dezenas e até centenas de anos pra se decompor.

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Pilhas de sacolas de papel e plástico sendo distribuídas logo na entrada do evento pela marca Only4

Ainda, muitos dos lixos gerados dentro da feira não são descartados lá dentro. As benditas sacolas e folders distribuídos pelas marcas vão pra casa das pessoas numa cidade onde apenas 1% do lixo produzido diariamente é reciclado. Mesmo que sejam descartados corretamente, não temos garantia de que ele vai ser reaproveitado.

Tanto lixo sendo produzido na maior feira de produtos naturais e orgânicos da América Latina é um contra-senso. É preciso um esforço coletivo pra revertermos essa situação e adicionar o “erre” que falta no tripé da sustentabilidade.

Alternativas

Boa parte dos resíduos existem porque a gente gera. Logo, uma maneira de colaborarmos pra diminuição desse problema é recusarmos folders, sacolas, copos e outros materiais descartáveis. No lugar, copos e talheres reutilizáveis, guardanapos de pano, ecobag – o famoso “kit lixo zero”. 

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Pratos e talheres descartáveis em um dos restaurantes principais do evento

Por outro lado, também é válido pressionarmos a organização do evento e principalmente os expositores pra que medidas mais duras sejam tomadas contra a produção de lixo. E são muitos caminhos possíveis!

Algumas atitudes que os expositores podem tomar:

  • Substituir materiais impressos, sejam eles de papel reciclado ou reciclável, por banner ou outro recurso visual que as pessoas possam tirar foto. Releases e notas à imprensa podem ser enviados via e-mail.  
  • Trocar sacolas de materiais plastificados ou de difícil decomposição por versões com papel e alça feita de sisal.
  • Substituir copos de plástico por ecocopos de papel – marcas como Green People e My Way utilizaram durante o evento – ou opções biodegradáveis.
  • Nos posts de divulgação do evento, conscientizar os clientes sobre a importância de levar pro evento copos reutilizáveis, guardanapo de pano e ecobag.
  • Substituir cotonetes com hastes de plástico por versões feitas com haste de papel – uma opção é a marca Needs.
  • Trocar lenços umedecidos tradicionais por versões biodegradáveis – uma opção é a Feel Clean.

A organização do evento também tem opções.

  • Distribuir gratuitamente ou vender a preços acessíveis copos, talheres e outros utensílios reutilizáveis, os chamados “kits lixo zero”, logo na entrada do evento.
  • Postagens nas redes sociais e e-mails que aconselham os visitantes a levarem seus “kits lixo zero” pra evitar a produção de resíduos, além da diferenciação dos diversos tipos de lixo. As postagens nas redes sociais precisam ser patrocinadas pra driblar o algoritmo e garantir que toda a base de seguidores do evento possa receber a mensagem.
  • Durante a feira, dar mais visibilidade a lixeiras de diferentes tipos de materiais. Pra evitar que os visitantes descartem de maneira incorreta, detalhar em cada lixeira que tipo de resíduo vai em cada uma. Essa medida também pode ajudar a evitar a contaminação dos materiais recicláveis ou reaproveitáveis.
  • Parceria com empresas, produtores locais ou mesmo com a Prefeitura pra que o lixo orgânico gerado possa ser compostado.
  • Incluir no Manual do Expositor orientações sobre a produção de lixo durante a feira ou criar um novo manual, específico sobre o tema, oferecendo saídas pro problema.
  • Proibir o uso de materiais que não possam ser reciclados e distribuição de sacolas na entrada do evento que não sejam de pano ou papel + sisal.
  • Nos restaurantes oficiais do evento, usar somente materiais reutilizáveis – talheres de metal, louça – ou biodegradáveis caso o visitante queira comer fora dali.

Algumas medidas listadas são simples, outras requerem um trabalho mais intenso de conscientização ou mesmo investimentos maiores. Mas todo esforço em direção à redução do lixo é importante. Quando se trata de uma feira com a proposta consciente: necessário e urgente.

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