Direto do mundo fashion, as maquiagens orgânicas e cruelty-free da Simple Organic chegam ao mercado

Empresa traz linha completa de maquiagem orgânica e produtos para o corpo. Entrevistamos Patrícia Lima, fundadora, que falou sobre a influência da maternidade no surgimento da Simple e até do uso de peles na São Paulo Fashion Week

Após mais de uma década de trabalho no mercado fashion, marcada por noites em claro e um ritmo de vida enlouquecedor, a editora de moda Patrícia Lima decidiu desacelerar. Encerrou no auge a sua agência de publicidade, que chegou ter 30 funcionários e entre outras coisas produzia catálogos e campanhas para marcas de peso do segmento fashion. Manteve a revista de moda que criou em 2004, a Catarina, mas pisou no freio para se dedicar à filhinha Maya.

Patrícia queria deixar um legado para ela, contribuir para um mundo melhor onde a pequena pudesse crescer. Mas continuar propagando o consumismo ia na direção contrária. “Eu não me identificava mais com aquilo. Muita gente achou que eu estava maluca de largar tudo no auge, mas foi o que eu fiz pra chegar à Simple”, disse a catarinense.

La Garconne
A Simple Organic foi a primeira marca de beleza natural a participar da São Paulo Fashion Week (Foto: Paulo Reis)
La Garconne
O batom preto na cor Strong e o pigmento rosa usados no desfile estarão à venda apenas em junho (Foto: Sergio Caddah)

Simple Organic é a marca de beleza orgânica da Patrícia, que estreou no mercado esta quinta-feira (16) na 43° edição da São Paulo Fashion Week. Os produtos foram usados por ninguém menos que Celso Kamura no desfile da grife À La Garçonne, de Alexandre Herchcovitch e Fábio Souza. A Simple é a primeira empresa do universo natural a conseguir este feito.

Simple 4
Patrícia Lima, criadora da Simple Organic 

Estrear sua marca de beleza numa das maiores semanas de moda do mundo, com a trajetória que Patrícia tem, foi simbólico.

OS PRODUTOS

Simple 2
Marca chega com linha completa de maquiagem orgânica certificada. (Foto: divulgação)

simple3

 

A Simple Organic chega com duas linhas: a Organic Make Up, de maquiagens orgânicas, e a Wellness, composta por produtos de cuidados para a pele. A primeira é feita com ingredientes orgânicos e leva o selo EcoCert. Já a segunda ainda será certificada, mas também é totalmente natural. No site está à venda grande parte dos produtos, mas devemos esperar por lançamentos no meio do ano, na feira Bio Brazil Fair.

Atualmente, todos os produtos da Simple são veganos. Mas Patrícia não quer que a marca seja “tachada” assim. “A gente não tem nenhum plano de lançar um produto não-vegano. O que eu venho falando é que somos uma marca de produtos orgânicos. Enquanto eu puder defender fórmulas que não tragam ingredientes de origem animal, a gente vai fazer isso. Mas eu não quero rotular.”

CAMPO MINADO

Ao longo de dois dias, entre aeroportos e a correria na São Paulo Fashion Week, entrevistei Patrícia, que mesmo questionada sobre assuntos polêmicos, não esquivou nenhuma vez.

Abaixo, num papo franco e provocador, ela me conta como a maternidade a levou para o estilo de vida consciente, responde sobre a controvérsia do uso de peles na SPFW e crava: “queremos quebrar essa barreira que divide marcas convencionais e naturais. Somos tão bons quanto.”

Nyle Ferrari: Pati, conta um pouco como e porque você entrou em contato com o estilo de vida consciente.

Patrícia Lima: sendo dona de agência de moda, editora de revista, vivendo nesse ritmo enlouquecido, fui por muitos anos workaholic, de virar a noite fazendo campanha e catálogo, comer junkie food. No começo até fazia yoga, mas depois parei porque não dava tempo. [risos] Aí eu engravidei, foi planejado, mas trabalhei até o último dia de gestação. E eu tinha certeza de que quando voltasse seria tudo igual, mas eu comecei a mudar meus valores, repensar muitas coisas, já não me encontrava mais, estava infeliz. Queria fazer uma coisa pra deixar de legado pra minha filha, que seja condizente com esse mundo que eu quero que ela viva. Que ela tivesse um ritmo de vida melhor, uma alimentação perfeita. A maternidade fez com que minha vida simplesmente virasse de ponta cabeça, e então dei essa guinada. A amamentação dela também contribuiu pra esse processo e até pro surgimento da Simple.

De que maneira?

Aos 4/5 meses, quando o bebê começa a passar a mão no rosto da mãe, puxar cabelo e tal, eu deixei de usar maquiagem um tempo. Ficava muito aflita de passar produto e a minha filha sujar as mãos com ele. Fui me doando cada vez mais, fui saindo desse ritmo enlouquecido.

Patilima
Pati e a pequena Maya (Foto: Instagram)

Então decidiu abrir mão de tudo.

Indo por aquele caminho é claro que minha filha não teria um mundo melhor. Eu não poderia mais só pensar no trabalho, então eu realmente abri mão. Uma coisa é você sair de um projeto que não deu certo, outra coisa é sair de um projeto com grandes clientes, que tá dando certo. Muita gente achou que eu estava maluca, mas foi o que eu fiz pra chegar nesse momento da Simple.

Foi muito difícil fazer parte da SPFW? Encarou alguma resistência por ser uma marca orgânica?

Foi muito natural e tranquilo, sabe? Nesses 15 anos no meio da moda eu construí um bom relacionamento com estilistas, marcas. Quando eu comecei o processo de criação da Simple lá atrás, em 2015, eu tinha certeza de que queria minha marca transitando nesse universo, da moda feita por criadores. Mas me preocupava porque maquiagem de passarela tem que ser mega potente, e a Simple é orgânica, minimalista. A beleza do Alexandre [Herchcovitch, estilista] é minimalista também, mas mesmo assim eu questionei: “a gente não tem um mix de produto completo pra entrar, como a gente faz?” Ele disse: “Patrícia, vamos fazer o teste com o Celso [Kamura, maquiador] que vai dar tudo certo. A Simple tem tudo a ver com a gente.” Fizemos os testes de maquiagem, o Celso nunca tinha trabalhado com produto orgânico e amou.

Acho que existe muito uma divisão: beleza natural e orgânica fica ali, e as convencionais de outro lado. E na verdade a ideia é quebrar essa barreira

A SPFW é muito criticada dentro do veganismo por conta do uso de peles em alguns desfiles. Muitos veganos, inclusive, incentivam o boicote a marcas de beleza que patrocinam o evento, a exemplo do O Boticário. Como você se posiciona a respeito disso, Pati?

Eu não tenho poder de mudar essa indústria, sabe? Eu posso fazer a minha parte. Eu não gostava mais do que eu fazia, eu não estava mais de acordo com o que eu estava propondo pra sociedade, inclusive porque eu estava fortalecendo o padrão de consumo, então eu simplesmente parei e mudei. Eu acho que a moda ainda tem muito a caminhar pra esse caminho da sustentabilidade. Muitas marcas não estão se importando com isso, mas deviam se importar sim, e eu acho que elas vão se arrepender logo ali na frente. O ativismo está forte, as pessoas estão questionando, não tem mais como a indústria ignorar isso.

Quais foram suas inspirações e referências pra chegar ao conceito da Simple?

A Simple é resultado de um universo de inspirações. Vem da moda, vem do design. Eu gosto do minimalismo, a Simple tem um pouco disso. Nunca quis olhar pra uma marca e falar assim: “ah, é uma versão orgânica dela”. Quero ter um caminho próprio. Todos os valores que temos são importantes, mas eu também gostaria de ser uma marca de beleza que a pessoa também vai comprar independente de ser só pelos valores. A minha proposta na Simple é: sim, é uma marca de beleza. Adicional: ela é sustentável, não testa em animais. Em relação às minhas referências, é a beleza indie, um pouco mais moderninha, mais leve, com frescor. Tem uma cara de Califórnia, de Florianópolis. Floripa tem muito a cara da Simple. É a nossa casa, nossa cara.

A Simple leva “Organic” no nome. O apelo dela não me parece ser apenas o fato de ser uma marca de beleza. Não acha que entrar no mercado colocando o sustentável como “adicional”, como você disse agora há pouco, e não ponto principal, é arriscado ou incompatível? Considerando que já existem milhares de outras marcas tradicionais.

Não é isso. Acho que existe muito uma divisão: beleza natural e orgânica fica ali, e as convencionais de outro lado. E na verdade a ideia é quebrar essa barreira. Sim, nós somos orgânicos mas temos a mesma pretensão que outras marcas, a gente tem a mesma vontade de atingir os mesmos resultados, esse é o meu ponto. Eu não acho justo quando fica rotulado, num segmento apenas. As marcas de beleza convencionais ganham o mercado por falta de conhecimento das pessoas em relação ao mercado natural. Somos naturais e orgânicos, mas a gente tá aqui pra competir com essas marcas. Quando eu falo em competir, acredito que a palavra é igualar. Eu não sei como falar isso de maneira sutil, mas eu acho que elas não são melhores do que a gente. Somos tão bons quanto.

Mas as marcas convencionais estão olhando pra uma direção e a gente pra outra. Você não acha que competir ou se igualar a elas é incentivar o consumismo, insistir numa lógica que estamos tentando romper?

A questão é que eu acho, sim, que a gente tem capacidade de atender à necessidade de consumo sem incentivar o consumismo. São coisas bem distintas. Hoje estou entrando com um mix de produtos, mas a tiragem é pequena. Eu acho importante oferecer novidades pros consumidores. Não é porque eles são conscientes que não se interessam por lançamentos. O que eu posso fazer é reduzir o volume, produzir menos porém com variedade. Requer um investimento maior por parte da Simple por conta da certificação, Anvisa, enfim. Mas que eu acho que na balança vale a pena.

A gente tem capacidade de atender à necessidade de consumo sem incentivar o consumismo

A Simple está sendo produzida pela Labphyto, a mesma fábrica que produz para outras marcas de maquiagem orgânica. Quais os diferenciais da Simple em relação a elas, se tudo é feito no mesmo lugar?

Acredito que o DNA de cada marca está no desenvolvimento dos produtos. Tenho certeza que os meus testes são diferentes dos outros. Sempre tive isso comigo de que se tem alguém no mercado fazendo alguma coisa, eu vou fazer diferente. Mas pra você ter uma certificação como a EcoCert, não tem como você inventar a roda, também. Ninguém tá querendo copiar o outro, esse mercado tá só começando, sabe? As marcas estão relacionadas, tem propostas muito parecidas, mas o desenvolvimento de produto cada um tem o seu. O fabricante não passa a fórmula de um pro outro, não tem poder de deixar as marcas iguais. Cada um segue o seu caminho.

“O consumismo está em todos os nichos, mas na moda ele é muito escancarado.”

Quais são os próximos passos da Simple?

Pretendemos produzir uma linha pro corpo também, porque tem gente que não tem tanto apego a maquiagens e prefere cuidado com a pele. Sou apaixonada por produtos de bem-estar. Tudo isso vamos tatear agora no início.

Anúncios

2 comentários sobre “Direto do mundo fashion, as maquiagens orgânicas e cruelty-free da Simple Organic chegam ao mercado

  1. O que você achou das formulações, Nyle? Verifiquei no EWG a composição apenas do batom Calm e tem ingredientes com notas de 5 a 7.

    1. Eu fiquei satisfeita com as formulações, Aline. Provavelmente o ingrediente que deu 7 no seu teste foi o parfum, não foi? O EWG não sabe diferenciar o parfum natural do sintético, então dá nota alta sempre. No caso da Simple, o parfum é natural, então não tem problema. Beijão

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s