Dó de gente, dó de bicho

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Há algum tempo assisti um comentário da Rachel Sheherazade, uma jornalista que ganha a vida descarregando cascatas de chorume pela boca no jornal do SBT, e fiquei bem pensativa. O discurso dela era basicamente o contraste entre tratar gente como bicho e bicho como gente. Confira o vídeo:

O que mais me intriga é que ela não está totalmente errada (nunca imaginei que fosse dizer isso). Tirando o tom agressivo, cínico e especista usado por ela para falar do zelo pelos animais (como se eles não tivessem esse direito, e têm), de fato, não é raro nos deparamos com pessoas que têm uma paixão admirável pelos animais, mas são incapazes de dar um prato de comida para quem tem fome ou um agasalho para quem passa frio.

Quando entramos nessa discussão, as opiniões se divergem: alguns dizem que bicho merece mais que gente, outros dizem que gente merece mais que bicho, e tem aqueles que criticam os dois grupos e quase sempre não ajudam nem gente, tampouco bicho. Há, ainda, quem tenha lucidez no meio de tudo isso e perceba que gente e bicho, apesar das diferenças, devem ser ajudados, cada um com suas particularidades.

Nem tudo que você pode fazer para um cão abandonado é possível fazer para um morador de rua, por exemplo, mas ambos podem ser amparados de alguma forma. Um cão você pode adotar, dar a ele um lar, comida. Para um morador de rua você pode doar roupas, sapatos, cobertores, uma sopa quentinha -, mas é inviável colocá-lo dentro da sua casa por motivos óbvios.

Parece algo evidente, mas digo isso porque nessa temporada de frio intenso pela qual passamos recentemente vi uma enxurrada de posts no Facebook com os dizeres “que vergonha, tem gente que cede a garagem para abrigar cachorro de rua no frio, mas não cede a garagem para uma pessoa que está na rua”.

Ajudar o próximo é um exercício necessário, seja esse próximo um gato, um cão, ou um ser humano. Não é certo tropeçar em uma caixa de papelão com filhotinhos sem fazer absolutamente nada assim como não é certo tropeçar em alguém encolhido na calçada, passando frio e fome, e não tomar nenhuma atitude (quando digo atitude não digo ir lá e jogar dinheiro, mas sim dar algo de comer, beber, para cobrir, etc).

Claro que a patrulha do “não é problema meu” vai vir dizer: “ah, mas dar comida e roupa para gente que precisa é só um paliativo”. É óbvio que é, mas é incabível cruzar os braços e deixar alguém morrer de fome e frio enquanto o Estado não olha por essas pessoas. Há quem tenha sangue frio e acredite na meritocracia para fechar os olhos diante dessas misérias urbanas – eu não tenho sangue tão frio e não acredito na meritocracia em um país que já nasceu desigual e dificilmente vai superar isso (estamos melhorando, mas ainda longe do que seria aceitável).

O crescimento rápido e desordenado das nossas sociedades nos fez passar por um processo de embrutecimento, no qual ver pessoas abandonadas à própria sorte a cada esquina nem sempre nos comove – e isso é desolador. Que continuemos ajudando animais abandonados, mas que também sejamos capazes, com a mesma disposição, de amparar pessoas.

10 comentários sobre “Dó de gente, dó de bicho

  1. Dificilmente comento em blogs, mas não me contive depois de ler o que vc escreveu. Como seria maravilhoso se mais pessoas tivessem sua sensatez e discernimento, isso pra mim se chama Amor, e o amor se basta, sem precisar de explicações, não importa a quem o direcionamos. Fiquei encantada com suas palavras e seus sentimentos. Parabéns!

  2. É vero, isso é uma coisa muito complicada, acho que as pessoas que não tem dó de bicho se sentem superiores a eles, e as que não tem dó de gente é porque foram magoadas por pessoas em algum ponto da vida. E as que tem dó dos dois entendem que todo ser vivente merece bem-estar,mas olha, é uma longa jornada até entender isso.

  3. Meritocracia é alucinação de neoliberal que precisa se sentir bem em não ajudar ninguém. Como alguém que nasce numa família que vive com menos de 1 salário mínimo por mês (que já é muito pouco pra uma única pessoa, diga-se de passagem) pode concorrer no mesmo patamar de alguém de classe média/alta? Claro que a desigualdade, que é um problema político, e só se resolverá com política, mas uma simples atitude, como doar um casado que não precisamos (convenhamos, todos temos um) não machuca e pode deixar alguém mais feliz ❤

  4. Eu fico cheia de ódio quando me deparo com essas comparações de tratamento entre o ser humano e os OUTROS animais. O comtário dessa jornalista foi absolutamente IMBECIL porque assim como gato tem tarapeuta, cachorro tem suéter, as PESSOAS ricas podem usufruir disso e muito mais. A questão não é tratar bem um animal e destratar uma pessoa, pois os seres humanos não são melhores do que os OUTROS animais. A culpa de terem pessoas nas ruas morrendo de frio e fome não é porque tem cachorros com suéter ou hamsters com aquecedores nas jaulas. Não cabe fazer esse tipo de analogia. A culpa da miséria é da má distribuição de renda e não tem porque alguém se sentir indignado porque um cachorro de rua é ajudado em vez de um mendigo, pois nós mesmos contribuímos para essa situação, de um jeito ou de outro. A “indignação” desses indivíduos tem que resultar em exigências por políticas públicas eficientes! É exigindo dos poderes que essa condição lastimável de existência na qual os mendigos se encontram pode ser transformada. E ainda tem outra: muitos dos cachorros e gatos de rua foram ABANDONADOS pelos seus donos! Se as pessoas fossem mais solidárias com OUTROS animais, como de fato deveriam ser (afinal não são todos os cachorros do mundo com suéteres, gatos com terapeutas e hamsters com aquecedores na gaiola), eles não precisariam estar passando por frio, fome, maus tratos e muito mais.
    É claro que nós temos que AGIR pra ajudar as pessoas, mas isso EM NADA impede de também ajudarmos os OUTROS animais. Eles não valem menos do que nós, não merecem menos cuidados do que nós e não são inferiores a nós humanos. Nem um mendigo vale menos do que ninguém. Somos todos animais e todos merecemos cuidado, respeito e consideração. Quer reclamar da condição dos moradores de rua? Faça isso, mas sem desmerecer o cuidado que alguns dos OUTROS animais recebem. Isso é um despropósito colossal, ignorância!!!! O mendigo não merece mais do que o cachorro de rua!!! Todos precisam e devem ser ajudados da mesma forma!!!

  5. Nyle, uma vez vi um morador de rua com seu fiel amigo ao lado, ele repartia o que estava comendo com o cãozinho…. a foto acima me fez lembrar deste episódio. Também acredito que devemos fazer a nossa parte, tanto a uma pessoa quanto a um animal. Ambos merecem respeito, carinho e amor.

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